E lá estava o celular tocando. Naquele final de tarde no qual o dia que inspirou nostalgia dá lugar a uma noite que pede reflexão. Aquele toque não combinava nada com aquele lindo céu nublado que permitia só o barulho do vento e do crepitar do fogo. Atendi para silenciá-lo logo. Era um convite para uma festa de motivo desconhecido, em um lugar desconhecido e com pessoas desconhecidas. Aceitei, pois todos ao meu redor estavam reclamando da minha forte e recente introspectividade.
Descemos em frente à porta. Minha amiga estava glamourosa em seu vestido laranja e seu salto alto, que combinavam com a sua alegria, ou máscara de alegria, por estar ali. E eu, em minha simplicidade, estava com um vestido e uma feição que combinavam com o clima e a cor do céu em sua atual falta de estrelas.
Entramos. Ela com o andar firme e confiante, Eu com os olhos baixos. Ela sorriu. Eu senti dor ao ser atingida por milhares de luzes, música alta e perfumes estrangeiros. Parecia que as estrelas que faltavam lá fora tinham se transportado para aquele salão, com seu brilho aumentado com alguma tecnologia da mesma geração que fabricou aquele insuportável celular que havia me levado até ali.
Após algum tempo de adaptação naquele ambiente cheio de tudo, fui reparar nas pessoas. A riqueza de detalhes na decoração mostrava de forma mais evidente a falta de rostos diferentes. Minha amiga havia me deixado sozinha em um canto e estava conversando com alguns homens que tinham o mesmo sorriso, a mesma roupa e, se bobiar, o mesmo cérebro. E, reparando em todas as outras pessoas, pude ver que todos estavam com a mesma feição e a mesma preocupação em erradicar de qualquer forma o meu tão amado silencio. O barulho estava insuportável e aquelas luzes que eram refletidas pelas paredes, pelas roupas, pelos olhos, também. Aliás, os olhos de todos não tinham profundidade. Refletiam inteiramente a festa, que era uma síntese do que era o mundo. Os vestidos das outras mulheres pareciam todos saídos do mesmo molde de sedução e falso interesse. E refletiam, reluziam, tão diferente do meu que, assim como meu espírito, tudo absorvia. As pessoas tinham medo da escuridão, do silêncio, pois longe das luzes e dos reflexos elas se encontrariam com o verdadeiro eu delas, e elas não gostariam de lembrar que não são aquilo que os outros querem que sejam.
Quando todas as fontes de luz, que aniquilavam minha amada escuridão, estavam se juntando com todos os reflexos; quando todas as vozes estavam se fundindo com aquela música insensível; quando todas as fragrâncias se tornaram um só aroma enjoante; quando tudo era um só redemoinho monocromático e inebriante, foi que eu vi aquele par de olhos e a festa ao redor sumiu. Foi no vácuo que percebi que aqueles olhos cor de avelã tinham alma. Foi no vácuo que vi aquela linda cabeleira que caía ao queixo em uma certa rebeldia que o resto do corpo tentava disfarçar. Foi no vácuo que vi aqueles olhos se fixarem nos meus e uma comunicação singela e profunda se formar, que os mais belos versos e os mais geniais poetas não conseguiriam descrever. Palavras eram lixo perto do que se formou. Minha alma leu a dele e a dele leu a minha. Me senti exposta como nunca e sai de lá tão rápido quanto os meus pés permitiam.
No dia seguinte, acordei com o insuportável sol no meu rosto. Aquele sol que era a junção de todas as luzes malditas da festa da noite anterior. Levantei e vi um papel em baixo da porta. Um papel comum, mas que expirava uma onda de misticidade. Nele estavam escritas duas palavras, um endereço e um horário. Aquelas duas palavras fizeram com que a esperança que eu achei que havia perdido voltasse com tudo. Aquelas duas palavras deram um choque que fez meu coração poeirento batesse mais forte. Aquelas duas palavras fizeram com que o sol não me incomodasse mais, pois elas eram a luz mais bonita que eu havia visto nos últimos tempos e iluminavam todo o meu ser. As duas palavras eram: "eu também".