quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Na festa que refletia

   E lá estava o celular tocando. Naquele final de tarde no qual o dia que inspirou nostalgia dá lugar a uma noite que pede reflexão. Aquele toque não combinava nada com aquele lindo céu nublado que permitia só o barulho do vento e do crepitar do fogo. Atendi para silenciá-lo logo. Era um convite para uma festa de motivo desconhecido, em um lugar desconhecido e com pessoas desconhecidas. Aceitei, pois todos ao meu redor estavam reclamando da minha forte e recente introspectividade. 
   Descemos em frente à porta. Minha amiga estava glamourosa em seu vestido laranja e seu salto alto, que combinavam com a sua alegria, ou máscara de alegria, por estar ali. E eu, em minha simplicidade, estava com um vestido e uma feição que combinavam com o clima e a cor do céu em sua atual falta de estrelas.
   Entramos. Ela com o andar firme e confiante, Eu com os olhos baixos. Ela sorriu. Eu senti dor ao ser atingida por milhares de luzes, música alta e perfumes estrangeiros. Parecia que as estrelas que faltavam lá fora tinham se transportado para aquele salão, com seu brilho aumentado com alguma tecnologia da mesma geração que fabricou aquele insuportável celular que havia me levado até ali.
   Após algum tempo de adaptação naquele ambiente cheio de tudo, fui reparar nas pessoas. A riqueza de detalhes na decoração mostrava de forma mais evidente a falta de rostos diferentes. Minha amiga havia me deixado sozinha em um canto e estava conversando com alguns homens que tinham o mesmo sorriso, a mesma roupa e, se bobiar, o mesmo cérebro. E, reparando em todas as outras pessoas, pude ver que todos estavam com a mesma feição e a mesma preocupação em erradicar de qualquer forma o meu tão amado silencio. O barulho estava insuportável e aquelas luzes que eram refletidas pelas paredes, pelas roupas, pelos olhos, também. Aliás, os olhos de todos não tinham profundidade. Refletiam inteiramente a festa, que era uma síntese do que era o mundo. Os vestidos das outras mulheres pareciam todos saídos do mesmo molde de sedução e falso interesse. E refletiam, reluziam, tão diferente do meu que, assim como meu espírito, tudo absorvia. As pessoas tinham medo da escuridão, do silêncio, pois longe das luzes e dos reflexos elas se encontrariam com o verdadeiro eu delas, e elas não gostariam de lembrar que não são aquilo que os outros querem que sejam.
   Quando todas as fontes de luz, que aniquilavam minha amada escuridão, estavam se juntando com todos os reflexos; quando todas as vozes estavam se fundindo com aquela música insensível; quando todas as fragrâncias se tornaram um só aroma enjoante; quando tudo era um só redemoinho monocromático e inebriante, foi que eu vi aquele par de olhos e a festa ao redor sumiu. Foi no vácuo que percebi que aqueles olhos cor de avelã tinham alma. Foi no vácuo que vi aquela linda cabeleira que caía ao queixo em uma certa rebeldia que o resto do corpo tentava disfarçar. Foi no vácuo que vi aqueles olhos se fixarem nos meus e uma comunicação singela e profunda se formar, que os mais belos versos e os mais geniais poetas não conseguiriam descrever. Palavras eram lixo perto do que se formou. Minha alma leu a dele e a dele leu a minha. Me senti exposta como nunca e sai de lá tão rápido quanto os meus pés permitiam.
   No dia seguinte, acordei com o insuportável sol no meu rosto. Aquele sol que era a junção de todas as luzes malditas da festa da noite anterior. Levantei e vi um papel em baixo da porta. Um papel comum, mas que expirava uma onda de misticidade. Nele estavam escritas duas palavras, um endereço e um horário. Aquelas duas palavras fizeram com que a esperança que eu achei que havia perdido voltasse com tudo. Aquelas duas palavras deram um choque que fez meu coração poeirento batesse mais forte. Aquelas duas palavras fizeram com que o sol não me incomodasse mais, pois elas eram a luz mais bonita que eu havia visto nos últimos tempos e iluminavam todo o meu ser. As duas palavras eram: "eu também".

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Pensamentos vindos na escola

Aqui estou após muito tempo sem escrever. Mas hoje, fiquei revoltada o suficiente para a inspiração vir a mim e eu conseguir mover meu corpo para escrever.
Então vamos aos fatos. Desde a quinta série eu estudo em escola da rede estadual de ensino, e desde sempre eles cobram dos alunos dinheiro para comprar ar condicionado. Sim, eu disse COBRAR. Foram inúmeras rifas, bingos e até de forma direta e descarada. Então, quando eu estava no primeiro ano do ensino médio, conseguimos comprar um ar para a nossa sala (sim, 4 anos depois) e pensamos que estaríamos livres disso. Então a nossa amada diretora começou a COBRAR pela manutenção do ar. Entendo que eles precisam de manutenção, mas eu estudo em escola PÚBLICA, ninguém pode me obrigar a pagar algo naquele colégio. A situação ficou crítica o suficiente para fazermos uma greve. Não entramos na sala enquanto o ar não estivesse ligado. Funcionou, mas os babacas concordaram em entregar o dinheiro quarta-feira (já que amanhã é paralisação). 
Agora vamos para as contas. Segundo o que nos informaram, cada ar teve o custo de 100 reais pela limpeza. Cada turma deverá juntar 50 reais. São três turnos, logo, cada sala arrecadará 150 reais. Mesmo que nem todas as salas sejam ocupadas a noite, esse dinheiro estará sobrando. Deixarei para vocês pensarem para que lugar esse dinheiro vai, levando em consideração que a diretora e a vice não prestam contas e só elas manipulam aquele dinheiro.


Entramos na sala, a aula continuou normalmente. Após o intervalo, a professora de biologia comunicou que os terceiros anos deverão desfilar dia 07 de setembro, e que deveria ter, pelo menos, 15 alunos de cada turma. Alguns aceitaram logo, outros aceitaram após uma pressão da professora. Eu fui firme desde o começo e não aceitei o suborno da professora, que ofereceu um ponto na média para quem desfilasse. Comportamento completamente inadequado e infundado. Não é justo para com aquele aluno que estuda e luta para conseguir esse ponto.


Outra questão é: qual o sentido de desfilar no dia 7 de setembro? Não há e nunca houve uma verdadeira "independência" brasileira. Tudo não passou de papéis assinados e de uma dívida enorme. O Brasil continua dependente dos outros países até hoje. Se ao menos o desfile fosse bonito. Minha mãe comenta que na época dela os estudantes tinham que marchar, tinha que ser tudo sincronizado. Hoje é do jeito que cada um achar melhor, não passa de um passeio, uma caminhada onde algumas marionetes caminham enquanto outras assistem esse ato. Que tal passearmos até a câmara de vereadores, e exigirmos tudo o que eles nos prometeram em campanha?


Então falam de patriotismo. Eu, pessoalmente, prefiro exercer o meu patriotismo na busca de uma revolução. Não só em termos de forma de governo, mas principalmente na mente das pessoas. A alienação rola solta e os poderosos se aproveitam muito bem disso. Não concordo e não concordarei nunca com esse teatro de "temos orgulho do nosso país". Não importa se ganhamos a copa do mundo ou se a alegria do nosso povo é conhecida mundialmente. Posso ter orgulho da cultura, mas o governo e o povo não me dão motivo nenhum para me orgulhar deles.


Vivemos em uma ditadura mascarada, onde o capitalismo só faz piorar as coisas. Tirem as vendas - chamadas de mídia - e as algemas - chamadas de cartão de crédito - e vamos "passear" em busca de uma verdadeira independência.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

O Apanhador de Desperdícios - Manoel de Barros

Uso a palavra para compor meus silêncios. 
Não gosto das palavras  
fatigadas de informar.  
Dou mais respeito  
às que vivem de barriga no chão  
tipo água pedra sapo.  
Entendo bem o sotaque das águas.  
dou respeito às coisas desimportantes  
e aos seres desimportantes.  
Prezo insetos mais que aviões.  
Prezo a velocidade  
das tartarugas mais que as dos mísseis.  
Tenho em mim esse atraso de nascença.  
Eu fui aparelhado  
para gostar de passarinhos.  
Tenho abundância de ser feliz por isso.  
Meu quintal é maior do que o mundo.  
Sou um apanhador de desperdícios:  
Amo os restos  
como as boas moscas.  
Queria que a minha voz tivesse um formato de canto.  
Porque eu não sou da informática:  
eu sou da invencionática.  
Só uso a palavra para compor os meus silêncios."

quarta-feira, 20 de abril de 2011

"O dia mais feliz da minha vida"

Acabei de chegar de um casamento, no qual a noiva disse "queria agradecer a todos vocês por terem vindo e terem prestigiado o dia mais feliz da minha vida. E a minha vida é o (aqui o nome do noivo) e eu amo muito ele"
Palavras como essas são, para mim, incompreensiveis. Quer dizer, consigo imaginar o que signifique para os outros mas não consigo me ver dizendo coisas assim, ainda. Mas esse não é o ponto.
Casamentos são sempre bonitos (ou tentam ser). "O dia mais feliz" da vida dos noivos, até aquele momento (é bom especificar). A verdade, é que vamos dizer "O dia mais feliz da minha vida" mais de uma vez, o que é realmente bom. Significa que as coisas mudaram, e provavelmente para melhor.
Mas fico pensando: se é realmente o dia mais feliz, por que forçar tanto as coisas?
Neste casamento que eu estava até a poucos instantes, haviam poucas pessoas (pelo fato de ser dia de semana, eu acho). Foram muitos os convidados. A decoração estava tentando parecer sofisticada e as pessoas estavam tentando parecer confortáveis. Festa sem música, salgadinhos frios. Tudo bem, só não entendo por que as pessoas tentam ser o que não são.
Pessoas simples tentando imitar os padrões de sutileza e comportamento adotados nas festas mostradas em novelas. Gastam muito dinheiro em uma festa meia boca, sendo que poderia ser gasto na lua de mel, ou algo de mais proveito para os noivos.
Claro, há gente que gosta dessas coisas, mas para mim deve ser o mais simples e verdadeiramente confortável possivel.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Fato cotidiano observado no dia 01/04/2011

(OBS: Esse fato não tem nada a ver com o dia da mentira)

Definitivamente a biblioteca é um dos lugares que eu mais gosto. A paz, os livros, as ideias o SILÊNCIO. E hoje tive a felicidade de ir na minha amada biblioteca. Peguei um livro e sentei no banquinho que tinha no hall de entrada, esperando a minha mãe, que não havia escolhido os livros que ela iria pegar.
Após alguns instantes, entra um menininho (que devia ter uns 6 ou 7 anos), com um livrinho na mão, e se dirige para a biblioteca infantil. Devolve o que ele tinha e escolhe outro, e sai com uma carinha de felicidade imensa. Lembrei de mim mesma quando tinha a idade dele, pois apresentava o mesmo comportamento. Essa idade em que sofri influencia imensa da minha mãe, indiretamente, pois a via lendo livros e mais livros, e comecei a gostar de ler tambem. E sou imensamente grata por isso.
Hoje, não me imagino mais sem um livro ao meu lado. Me sinto tão bem viajando a outros lugares, sentindo outras emoções, adquirindo novo conhecimento e realmente não entendo como uma pessoa não gosta de ler. Mas há tambem inúmeros outros comportamentos comuns nessa sociedade atual que não me entra na cabeça.
E eu realmente ficaria muito feliz se esse menininho manter esse hábito tão maravilhoso da leitura, e mais ainda, se esse hábito fosse mais estimulado em crianças da idade dele, e em todas as outras idades.

quarta-feira, 30 de março de 2011

Saudade

Cá estou, tentando escrever um texto na frente do computador. As ideias estão aqui, me atormentando, pedindo para serem expostas, mas as palavras não se combinam de forma satisfatória. Levanto, abro a janela, percebo que ainda está nublado, mas o clima já está mais quente de novo. Eu estava imensamente feliz com o tempo nublado e fresquinho que estava pairando sobre Foz do Iguaçu. Sento na frente do computador, retomando o meu exercício sem resultados. Um raio de sol, tímido, mas que ganhou forças me atinge e logo penso "É, meu clima preferido realmente está indo embora". Olho pela janela e vejo que está garoando. Chuva e Sol, milhões de lembranças me invadem.
Lembro do passeio que fiz com meus tios e primos no Ibirapuera há alguns anos, num dia de sol, no qual fomos surpreendidos com sol e chuva. Lembro do delicioso banho de chuva com a minha prima, no ano seguinte. E de inúmeros outros momentos que tive com essa família maravilhosa, mas que mora tão distante.

Saudade, é isso que me invade com força, e com certa frequencia. Saudade dos lugares bonitos ou que fazem eu me sentir bem. Saudade dos familiares e dos amigos, que infelizmente moram longe de mim. Saudade de certas situações. Saudades até do que não existiu, daqueles sonhos que me animaram, e hoje estão perdidos no espaço.
Essa saudade que me faz ter mais consciência do real valor que algumas pessoas têm para mim. Que me faz valorizar os momentos que passo com essas pessoas. Que me lembra que a pior distância, não é a física, e sim a psicológica.
Essa saudade, que juntou palavras em um texto sem nexo, mas encharcado de nostalgia.

terça-feira, 29 de março de 2011

Fato cotidiano observado no dia 29/03/2011

Hoje minha amiga estava muito apertada para ir no banheiro e me chamou para ir junto logo no inicio do recreio. Não sei explicar por que as meninas precisam de companhia para ir ao banheiro, e nem é essa a questão. Enquanto ela estava fazendo o que viera fazer ali, fiquei no corredor esperando, encostada na parede e perto do espelho.
E a cada segundo que passa, entram mais e mais meninas procurando um único e amado objeto: o espelho. Sua pressa em se ver é tão grande, que elas não se incomodam de se amontoarem em um espaço MINÚSCULO para dar uma olhadinha, arrumar uma mechinha de cabelo, fazer uma pose e sair satisfeita, ou nem tanto. Fazem isso com tanta urgência, que é a primeira coisa que fazem após sair das suas respectivas salas, e só conseguem relaxar após o ato concretizado.
Afinal, a vida delas depende disso. Como vão seduzir e induzir os menininhos a irem falar com elas sobre assuntos supérfluos com segundas, terceiras e quartas intenções? Afinal, a beleza (ou uma imitação barata dela) é tudo o que elas possuem para tal.
Após um pequeno espaço de tempo (MUITO pequeno mesmo), comecei a achar aquele ambiente insuportável. Estava contando os segundos para sair daquele lugar impregnado com o culto excessivo à boa aparência. Espero (não tão) pacientemente, e lá esta a minha amiga pronta, e finalmente me vejo fora e posso respirar mais tranquilamente.
Passa o recreio, a quarta e a ultima aula. Finalmente somos liberados para irmos para casa ou para o lugar de agrado de cada um, mas antes, é claro, lá vão as mesmas menininhas entrar naquele ambiente minúsculo, dar uma olhadinha, arrumar a mechinha de cabelo, fazer uma pose e PRONTO, agora elas já podem ir para casa.